Naquela confortável residência, o telefone toca e a empregada atende, com sotaque nordestino:
- Alô?
- Alô, Maria? - Pergunta a voz do outro lado, com sotaque português.
- É, sim sinhô.
- Sou ieu, teu patrão! Ieu estou a precisaire de um número de telefone que está no criado-mudo, no quarto. Entres lá e pegue para mim, faiz favoire.
- Olhe, vai dá não sinhô. A patroa tá lá durmindo e pediu pra num sê incomodada.
- Ora, Maria! Ieu preciso do número já! Entres lá na surdina e pegues o papel sem fazeire barulho!
- Acontece que o ômi que tá lá durmindo com a patroa tembém falô pra eu num entrá de jeito nenhum!
- O Que?! Taim um homem na cama com a patroa?!
- Tem, sim sinhô.
- Maria, tu vais fazeire o seguinte: Pegues o meu revólver que está na gaveta da sala, entres no quarto e dê um tiro na patroa e outro no desgraçado!
- Vixe Maria! Eu num posso fazê isso, não sinhô!
- Não discutas comigo, criatura! Vá lá e faças o que estou a te mandaire!
- Mas, mas. . .
- Não taim mas nem meio mas! Pegues já a arma e descarregue naqueles dois safados! Ié uma ordem!
A empregada resolve obedecer. O português, nervosíssimo, fica escutando, com o telefone no ouvido. Após alguns minutos ele ouve dois tiros. Em seguida, uma barulho de água: Splash! Logo depois, a empregada volta ao telefone. Ansioso, ele pergunta:
- E então, Maria? Como foi?
- Bom, eu fiz como o sinhô mandô! Acertei o primeiro tiro na patroa, e ela tá lá, mortinha, cheia de sangue! Agora, eu acho que no ômi eu não acertei não sinhô, por causo que ele levantô, peladão, pulô a janela, saiu correndo e caiu drento da piscina!
- Como? Piscina? Ó, raios! Que número é aí?
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